Mecanismo de Acção

   A cetamina induz o aumento máximo da actividade metabólica nas estruturas corticais e subcorticais do sistema límbico. No entanto, para doses subanestésicas, onde o efeito analgésico é mais predominante, a actividade metabólica nestas regiões está diminuída. (14)

   Ao nível celular, a cetamina é um antagonista não competitivo do receptor do N-metil-D-aspartato (NMDA) de baixa afinidade e dependente do uso, característica responsável pelos seus efeitos terapêuticos primários. No entanto, também altera o funcionamento dos receptores dopaminérgicos, serotoninérgicos, colinérgicos e opióides e dos canais de sódio. (14)

   Figura 5: Neuroanatomia do cérebro 

  A cetamina e o seu metabolito activo, norcetamina, são antagonistas não-competitivos da N-metil-D-aspartato (NMDA). A cetamina interfere na acção dos aminoácidos excitatórios incluindo o glutamato e o aspartato. O glutamato é libertado na fenda sináptica por exocitose dependente do cálcio, onde pode actuar em vários receptores, incluindo o NMDA ionotrópico. Este receptor, além do glutamato, também requer glicina para abrir e é altamente permeável ao cálcio, sódio e potássio. O glutamato é essencial para a sinaptogénese e sobrevivência neuronal, mas é também importante na morte celular induzida pela excitotoxicidade. (15, 16)

 Figura 6: Receptor NMDA                     

  Os antagonistas NMDA, como a cetamina e o dextrometorfano, têm-se mostrado úteis na redução da dor aguda pós-operatória e no consumo de analgésicos, por terem uma maior duração de acção. Esta duração ganha relevo quando adicionados a meios convencionais de analgesia, como os opióides e antiinflamatórios não-hormonais, no perioperatório. (17)

   A cetamina inibe o receptor do NMDA por dois mecanismos distintos:

a) Bloqueia o canal aberto, reduzindo o tempo médio durante o qual o canal se encontra aberto;

b) Liga-se ao receptor fechado e, por um mecanismo alostérico, diminui a frequência de abertura do canal.

   Dependendo da sua concentração, a cetamina causa, predominantemente, o bloqueio do canal fechado (em baixas concentrações, verificando-se propriedades analgésicas) ou bloqueia tanto o canal fechado como o aberto (em altas concentrações, provocando os efeitos anestésicos). (18)